quarta-feira

Injecções emprestadas "na hora" por hospitais públicos para abortos em clínicas privadas

Sim. Isto aconteceu ontem algures neste país. E é o prato do dia. Já não basta as pessoas correrem riscos de saúde em vãos de escada que cobram como hóteis de luxo, como ainda se lesa as contas dos hospitais públicos onde o staff canaliza produto por baixo da mesa para a amiga parteira ali do lado. A conversa é do tipo: "Amigo, precisava mesmo, aqui e agora, de uma injecção para uma abortante de sangue O-RH negativo, não tens por aí?". E como diz o anúncio... É já a seguir.

Por favor, despenalizem o aborto de uma vez por todas!!

14 comentários:

Marisa disse...

Um comentário de mim mesma:

É claro que como bloguista - tal como jornalista - não revelarei as minhas fontes.

Os técnicos e os governantes conhecem bem os processos. Não precisam de procurar quem dê voz àquilo que eles próprios não têm coragem de tratar.

dina disse...

Na Califórnia - notícia de hoje - um tribunal reconheceu aos bloguistas o mesmo direito de reserva das fontes consagrado para os jornalistas.

Anónimo disse...

Desculpe lá mas escolheu um péssimo exemplo. Ainda bem q os profissionais de saúde dos hospitais públicos disponibilizam tais injecções às "amigas parteiras", elas não as conseguem de outra maneira e só demonstam q são óptimas e muito responsáveis ao quererem administrar Relmus (acho q é este o nome do medicamento) às mulheres ORH- q abortam, porq só assim protegem futuros problemas em próximas gravidezes q sejam levadas até ao fim (as complicações fruto da incompatibilidade sanguinea entre mãe e filho custariam bem mais ao erário público, não se amofine tanto).
Com o fim do seu post concordo em absoluto: Despenalize-se o aborto!

Inês Meneses disse...

Mas estas parteiras não são quem está a prestar o serviço de saúde a que as mulheres portuguesas deviam ter direito e que o Estado português se recusa a prestar-lhes? A mim parece-me o mínimo que, "por baixo da mesa" se necessário, os produtos farmacêuticos cheguem onde são precisos. Felizmente para mim nunca precisei de abortar; mas por muitas mulheres à minha volta e por todas em geral, estou muito grata por haver parteiras que assumem este serviço e que, apesar de não existir qualquer obrigação de o fazerem, por a IVG estar à margem da lei, fazem o que tem que ser feito para o prestar com todos os cuidados necessários. (nota: apesar da coincidência de nome, não sou a jornalista minha homónima)

escola de lavores disse...

Ao anonymus anterior: não creio que a essência da crítica da Marisa fosse (tanto) aos profissionais de Saúde dos hospitais públicos, mas à ENOOORMEE hipocrisia que envolve este assunto. E os preços+condições das 'parteiras ali do lado' não são menos hipócritas - acha mesmo que é só altruísmo?
Eu votei e fiz a campanha que pude na não menos hipócrita solução do referendo promovida pelo Governo de António Guterres. Deu no que deu.
(só não concordo com a expressão 'Por favor,..';)
Por favor, sim, sejam honestos e sejam coerentes!

Shyznogud disse...

Ninguém falou em altruísmo. Se ler bem eu limitei-me a comentar o caso concreto apresentado pela Mariza e repito, reforçando, o q disse: se nos hospitais públicos não existissem pessoas q disponibilizassem o tipo de medicação referida no post (e q é bem identificada: injecções a administrar às mulheres RH- q abortam) estariam, no fundo, a ser péssimos profissionais de saúde. Aliás, se investigarem bem o assunto saberão q essas injecções eram de venda em farmácia até há uns anos atrás e, nessa altura, as parteiras q faziam abortos compravam-nas ou alertavam as mulheres q estavam nessas condições a ir de imediato ao seu médico para q lhes prescrevesse uma receita. A certa altura, sabe-se lá porquê, essa medicação deixou de ser disponibilizada nas farmácias passando a existir exclusivamente nos hospitais. Que outra solução, então, q não recorrer a médicos (responsáveis!) para q as mulheres q necessitam tais fármacos os possam tomar?
Tb. repito, e reforço de novo, o q disse - em mail q, espero, terão recebido - as parteiras q têm este tipo de preocupações merecem o meu aplauso pelo profissionalismo q demonstram.
Qto à hipocrisia geral, estamos de acordo... mas não é este o exemplo ideal, bem longe disso, de a provar.
By the way, o meu mail está à disposição se estiverem para aí viradas, isto porq não estou a falar de cor (e era eu o anonymus de ontem à noite)

Inês Meneses disse...

Luísa, estamos todos de acordo no essencial, mas restam algumas questões.
Não será o cúmulo da hipocrisia fazer das chamadas parteiras o bode expiatório de um assunto que, enquanto sociedade, temos sido incapazes de resolver?
Enquanto for ilegal fazer abortos, fazê-los com qualidade não é inevitavelmente caro, uma vez que é preciso recorrer ao mercado negro para obter, por exemplo, os medicamentos necessários?
Por fim, não creio que os profissionais de saúde tenham que ser altruístas, têm que ser é profissionais. São-no sempre que asseguram os melhores cuidados aos seus pacientes - são-no mais ainda quando o fazem em situações em que não há qualquer regulamentação ou fiscalização que os obrigue. Não vejo ninguém pedir altruísmo aos médicos que prestam cuidados de saúde em privado nos casos em que eles são legais, portanto mais baratos e com muito menos riscos...

escola de lavores disse...

à inês:
estarmos de acordo no essencial parece-me o mais importante. os abortos clandestinos também são um negócio. perpectuar a ivg como crime é alimentar esse negócio.
não sei se as 'parteiras' referidas são profissionais de saúde. e não faço delas bode expiatório.
os profissionais de saúde, justamente porque são profissionais de saúde, e fazem um determinado juramento a propósito, e só nesse sentido, têm uma missão altruista - eu não disse benemérita, caridosa, etc.
quanto ao medicamento em causa, não conheço os detalhes do histórico da venda nem a percentagem da sua necessidade para os casos adequados.
sinceramente, eu nem queria comentar este assunto; só o fiz porque alguém anónimo entendeu dizer que era um péssimo exemplo, quando qualquer exemplo é só um exemplo, e afinal - parece - no essencial estamos de acordo.
E agora, pergunto, o que é que vamos fazer para mudar isto?
(nós, aqui na Escola, temos esta mania involuntária de, muito a despropósito do marasmo reinante, trazer estes assuntos à baila. perdoem-me a imodéstia se puderem.)

Inês Meneses disse...

Um exemplo, por definição, deve exemplificar. O que, aparentemente, se queria exemplificar, eram os malefícios da penalização do aborto (malefícios sobre cuja existência estamos de acordo). Ora a história que servia de exemplo é, pelo contrário, um caso em que o aborto clandestino é feito com o melhor cuidado possível nas circunstâncias, havendo profissionais de saúde que correm riscos legais e profissionais para cumprir a ética da sua profissão (proteger a saúde das pessoas). E isto é deontologia profissional, não altruísmo. Daí dever ser exigida (o que não se pode fazer enquanto o acto médico em causa é clandestino).

Aquilo em que assumo que concordamos é que os profissionais de saúde não deviam precisar de correr tais riscos; e que as mulheres que abortam tem o direito a bons cuidados que não fiquem ao sabor do bom carácter dos médicos e enfermeiros envolvidos.

Último ponto: questionar, por si, que haja lucro neste acto médico implica questionar a existência de qualquer medicina privada. O que até se pode fazer, mas é outra conversa. O problema principal da IVG não é ser um negócio, é ser um negócio selvagem, não sujeito a regras ou controlo de qualquer espécie.

Shyznogud disse...

Permita-me discordar. No essencial deste post estamos em profundo desacordo, ao q tudo indica, já q o tema/tom foi, mais coisa menos coisa, "essas parteironas de vão de escada q, não só enriquecem com a exploração das mulheres q precisam abortar como, ainda por cima, e com a cumplicidade de uns hipócritas de uns médicos amigos, defraudam o erário público desviando umas injecções para darem às mulheres RH-"... não se pode menorizar o q está verdadeiramente em causa, - neste post, repito, q não pode, de maneira nenhuma, ser lido como uma declaração geral sobre a IVG já q é muito concreto - como o faz qdo diz q não conhece os detalhes do histórico de vendas do medicamento, é q a preocupação q as parteiras q procuram activa, e ilegalmente claro (não têm outro remédio)deve q, bolas TEM, ser aplaudida. Existe um enorme preconceito, sim, na forma como se olham para as parteiras q fazem abortos e este post é um exemplo perfeito disso.
(Ah! normalmente qdo alguém escreve "péssimo exemplo" quer dizer, eufemisticamente, q "não é exemplo de todo", este pequeno "aconchego" é só para ver se, desta vez, me faço entender.

Shyznogud disse...

errata:
onde se lê
"é q a preocupação q as parteiras q procuram activa, e ilegalmente claro (não têm outro remédio)deve q, bolas TEM, ser aplaudida."
deve ler-se
"é q a preocupação q as parteiras q procuram activa, e ilegalmente claro (não têm outro remédio)tal medicamento deve, bolas TEM q, ser aplaudida."

Marisa disse...

Vamos lá ver se a gente se entende.

Fui eu que pus o post portanto eu é que sei o que queria dizer.

A Luísa, por exemplo, captou o que eu queria dizer. Aliás, o bold final não deixava margem para dúvidas. Era preciso eu ser muito incoerente para querer dizer outra coisa que não fosse isto:

As parteiras e as enfermeiras fazem bem em fazer o que fazem. Independentemente da motivação que as mova, prestam um serviço útil á comunidade.

O Governo é que faz mal ao obrigar estas pessoas a fazerem o que fazem, às escondidas.

capicci? Peço desculpa se me expressei mal no post.

Inês Meneses disse...

Cara Marisa,
Julgo que ninguém pôs aqui em causa a sua posição de fundo acerca da criminalização do aborto. Apenas discutiamos a justiça (no meu entender, injustiça) de criticar a cedência (ilegal porque a lei de que discordamos assim o obriga) de medicamentos para que a prática de abortos no exterior do hospital possa ser um pouco mais segura.
Concordo com a Luísa quando diz que, se estamos de acordo em opôr-nos à criminilização, o mais importante será encontrar formas de provocar uma séria alteração da lei. Mas estas discussões acerca da realidade que temos parecem-me importantes também, porque nos permitem perceber melhor aquilo que partilhamos - e descobrir aquilo que eventualmente nos separa. Assim é mais fácil, em eventuais acções concretas, saber o que podemos(devemos) defender juntos, acerca de casos actuais e acerca do que pretendemos que venha a ser.
Obrigada, portanto, por este dia de discussão. Não conhecia este blog, mas vou prestar atenção.

Shyznogud disse...

Eu assino por baixo de tudo que a Inês acabou de dizer. Além de tudo o mais um dia de discussão é sempre um dia ganho. Das coisas q me faz um bocadinho de cócegas é a "muito lusa" mania de olhar para a discussão como algo intrinsecamente mau. Nisto sou muito socrática..Hum, parteiras, maiêutica... isto anda mesmo, e como diz o outro, tudo ligado.