segunda-feira

O meu 25 A.



Não são muitas as memórias que guardo do 25 de Abril.
Tenho uma vaga ideia de ter acordado com a sensação de quem dormiu mais do que a conta e descobrir, espantada, que naquele dia não ia à escola. Nem eu, nem a Dona Alice, a minha professora da quarta classe, nem ninguém.

Lembro-me de ter ficado em casa a ajudar a minha mãe, que tentava pôr em ordem as dezenas de caixotes que tinham chegado de camioneta, poucos dias antes, àquela casa nova.

Sei, soube depois, que os meus pais já estavam alertados para o golpe de Estado – foi esse, lá em casa, o primeiro nome da revolução – que começara de madrugada. O meu avô paterno, que dormia pouco e gostava de ouvir a BBC no grande rádio da mesa de cabeceira, tinha ligado a avisar.

Recordo o medo, misturado com alguma excitação, da minha avó. Era ela a única usar, nesse primeiro dia, a palavra revolução que guardava da sua meninice, passada durante a I República numa casa junto às Cortes.

Do ambiente na rua, nada recordo. Primeiro porque não fui à rua. Depois porque aquela rua ainda era para mim uma rua estranha, desconhecida.

A partir de uma certa idade – que por acaso é a minha – começamos a desejar ser mais jovens. Eu não sou excepção. Só não me importava de carregar algumas rugas e cabelos brancos se esse preço me permitisse estar aqui, hoje, a contar que vivi a revolução.

2 comentários:

António disse...

Ainda não andava na escola e não me lembro desse dia. A minha memória da revolução começa um ou dois anos depois - não tenho a certeza - a propósito de uma corrida comemorativa da data: guardo nitidamente a imagem dos atletas lentos e cansados - não é metáfora: quando cheguei já iam nas últimas voltas -, respirando como a minha professora de educação física me ensinaria mais tarde a respirar em corrida; e a nega do meu pai aos meus insistentes pedidos para que me inscrevesse na corrida seguinte(naquela idade ainda me achava, entre muitos outros prodígios, veloz: costumava até correr de olhos no chão, achando imensa graça - imagine - à imagem dele fugir-me tão depressa debaixo dos pés. Pronto, aqui talvez haja um cheirinho a metáfora).

SM disse...

Impossível qualquer memória; tinha exactamente seis meses.

Hoje só tenho as histórias da minha mãe que conta a aflição da altura porque quando se deu conta do que acontecera já um dos meus irmãos tinha ido para a escola. Uma infinidade de tempo até saber do Bézito.

A frase que guardo e que me foi repetida é a de um vizinho meu à minha mãe:"então não sabe que houve uma revolução?".

Ah, e reza a estória que eu estava a caír de doente.