quarta-feira

O país parado

Consultando um blog de informação, reflexão e conspiração jurídicas que referia a alteração futebolística da agenda parlamentar de dia 21 de Junho, cheguei a este comentário:

"Para ser sincero também eu adaptei a minha agenda aos jogos do mundial (não só aos da seleção Portuguesa)...e na verdade não conheço marcações de audiências ou outras diligências para as horas dos jogos de Portugal...é perfeitamente normal!"

Alguém me pode dizer se é só desconhecimento por parte do advogado que assina ou é mesmo assim ? A justiça também vai parar durante o Portugal-México e durante todo o Mundial ? Não seria melhor fechar o país durante o campeonato e irmos todos de férias ?

(Desculpem a visão estreita da coisa. O melhor mesmo é referir-me ao mundo. A ler Planète Football por Ignacio Ramonet)

"Quero estudar"*

"Temos uma semana de férias. A minha mãe chama-me à parte: - MInha filha, tenho uma coisa para te dizer.
Respondo-lhe: Mamã, se tens alguma coisa para me dizer, diz! Não deves guardá-la para ti...
Mas as primeiras palavras aniquilam-me: - Receio que seja esta a última vez que vais à escola.
Abro muito os olhos, encaro-a e pergunto-lhe: - Como podes dizer tal coisa? Hoje em dia, não se pode viver sem estudar. Até mesmo um camponês precisa de conhecimentos para cultivar a terra; caso contrário, não colhe.
A minha mãe insiste: - Tu e os teus irmãos, são três a ir à escola. Só o vosso pai trabalha, longe. Não é o suficiente.
Pergunto-lhe, com o coração despedaçado: - Significa isso que terei de voltar para casa?
- Sim, responde-me ela.
- E os meis dois irmãos?
- Os teus dois irmãos poderão prosseguir os estudos.
Insurjo-me: - Por que podem os rapazes estudar e as raparigas não?
A minha mãe esboça um sorriso cansado: - Ainda és muito nova... Quando fores crescida, compreenderás.
Este ano, não há mais dinheiro para a escola. Estou de regresso a casa e cultivo terra para subsidiar os estudos dos meus dois irmãos mais novos. Qunado penso nos risos da escola, sinto quase a impressão de ainda lá andar. Como desejo estudar! Mas a minha família não tem dinheiro.
Quero estudar, mamã, não quero voltar para casa! Se pudesse continuar eternamente na escola, seria magnífico".
Ma Yan 2 de Maio de 2001

* in O diário de Ma Yan - A vida quotidiana de uma criança chinesa, Prefácio e notas de Pierra Haski, Edições Asa. Recomendo a leitura.

Ainda a violência na escola

O post "Sementes de violência", que podem encontrar um bocadinho mais abaixo, mereceu o comentário que a seguir reproduzo. Está aqui porque achei que merecia sair do escurinho dos comments. Obrigada à autora.


"A escola não pode ser o caixote de lixo da sociedade e o problema não se resolve sentando um professor em cima da tampa pª o lixo não saltar e incomodar quem está cá fora, paizinhos incluídos.O problema é que nos está a saltar a tampa a todos.

Como é que se chegou até aqui? Não é de agora, é de sempre: É DE CASA; agora agravado c/ diferenças culturais e c/ a falta de expectativas.Fui criada no medo e não no respeito e, em 1967/8, por cada "falta de castigo" no meus 1º e 2º ano (actual 5º e 6º)1967/68 levava uma valente tareia, mesmo assim esgotei o nº possível de faltas de castigo sem ser explusa. Fiz o liceu c/ média de 14, naquele tempo dispensava-se às orais c/ 14. Não era das piores.Adorava o meu liceu e os colegas, era a minha evasão, um espaço de normalidade. Tive bons e menos bons professores, tudo normal como na vida. Usava botas de borracha e tinha o dinheiro à conta pª a camionete e, na minha equipa de ping-pong e ringue estavam colegas que iam de mota ou de motorista pª as escola.Chorei quando acabou.

Olá Miss Patrício e Prof. Vidigal (Inglês)! Prof Virgínia Vaz (Português)! Prof Guerreiro (Matemática)! Viva Maxa Espexífica (Física-Química)! Olá Prof. Egípcia (História)! Miss Baleia (Geografia)!Obrigada a todos os que me aturaram e me ensinaram.Esqueci-me de um promenor: apanhavam-se faltas de castigo por falar na aula, por usar casaco por cima da bata (tinha que se tirar), ter as saias curtas (descosiam-nos as bainhas) ou ser apanhado a fumar no intervalo (ora fartem-se lá de rir).

Não é dizer "no meu tempo é que era bom" mas tenho consciência que era uma semente que só não germinou em violência por causa daquela escola onde fui mto feliz. "

Fui professora provisória na década de 80 e já fui ameaçada c/ cadeiras e furos nos pneus. Fui directora de turma e foi um choque quando, ao 3º postal enviado, um pai foi à escola só para me dizer que não enviasse mais postais.Tinha alunos que se alimentavam só de caldo de farinha e café (na então chamada cintura industrial de Lisboa).A escola era o início de um escombro ao lado da linha do comboio.Nessa altura eu (ou seríamos todos?) devia ter feito alguma coisa.O que fiz foi deixar de ser professora.Eu e todos nós temos culpa.

Injecções emprestadas "na hora" por hospitais públicos para abortos em clínicas privadas

Sim. Isto aconteceu ontem algures neste país. E é o prato do dia. Já não basta as pessoas correrem riscos de saúde em vãos de escada que cobram como hóteis de luxo, como ainda se lesa as contas dos hospitais públicos onde o staff canaliza produto por baixo da mesa para a amiga parteira ali do lado. A conversa é do tipo: "Amigo, precisava mesmo, aqui e agora, de uma injecção para uma abortante de sangue O-RH negativo, não tens por aí?". E como diz o anúncio... É já a seguir.

Por favor, despenalizem o aborto de uma vez por todas!!

Quantas vezes fez xi-xi hoje?

E quantas lavou as mãos??? Se é dos 30% de Europeus* que não lava as mãos depois de usar a casa de banho, pelo menos evite dar apertos-de-mão às pessoas.

PS: Eu desconfio que seja ainda mais gente, pois eu bem vejo o mulherio na casa de banho lá do trabalho... Às vezes ainda me faço tonta a dar-lhes passagem para o lavatório, mas elas saem directamente da sanita para a porta. Até já cheguei a dizer "Ah!... Pensei que viesse aqui lavar as mãos" (daí que me estivesse a desviar gentilmente). Mas não se mancam!

*Esta percentagem foi referida ontem, em Barcelona, num estudo da Unilever.
Por que é que o post da Luísa “Isto é connosco” não tem nenhum comentário (nem meu)???

É que aquilo É mesmo connosco!...

Trabalho infantil no Expresso

Infelizmente ainda não tive tempo para ler a apelativa reportagem da revista do Expresso, Única, sobre trabalho infantil, já aqui sublinhada pela Luísa. Só vi as gralhas do destaque de entrada :)

Ainda antes de abrir aquelas páginas pensei ... Como raio é que os pais dos miúdos (e os próprios) se expuseram publicamente arriscando-se a perder esse trabalho? Mas assim que vi as fotos percebi logo. Não querendo tirar ilações precipitadas pelas aparências...

Aquilo não é gente cruel, mas sim gente muito ignorante, incapaz de entender a importância de uma infância feliz. Se não imaginam que prejudicam as crianças, como preveriam que, por falarem a uma revista, perderiam o seu trabalho?

E como se sentirá o autor, Hugo Franco? Fez bem em denunciar uma situação, mas as consequências para aquela família... Eu não teria publicado caras.

AVISO

Quase a entrar em época de exames, a Escola chama a atenção das meninas para o súbito aumento de visitas. Uma análise apurada permitiu concluir que tal se deve a f. e a JPH do Glória Fácil, a FTA do Mau Tempo no Canil, a RCP do Mais Actual.

Bons alunos, boas turmas

As turmas da manhã sempre foram as mais certinhas. Os malandros iam para a tarde. É assim há vários anos. O diagnóstico da ministra da educação confirma que a coisa não mudou.
Conheço até uma mãe que, este ano, pôs o filho numa escola pública porque tinha uma amiga na secretaria que lhe garantiu que escolheria uma boa turma para o miúdo. Como eu não tenho amigas na secretaria, continuo a escolher o privado.

(Falta) Educação

Um dos problemas da Escola é os pais acharem que só a Escola educa. Ou seja, para mim, o grande problema começa em Casa. Quando não há referências e valores na família, não se pode esperar que as crianças/jovens se portem bem na Escola. Alguém espera bom comportamento de um aluno cujo pai/mãe ameaça ou agride um professor ? E de um miúdo que fica sózinho em casa, a partir das 6 da manhã (quando os pais saem para ir trabalhar) e tem de se amanhar para ir para a escola ? E de uma criança cujos pais nem sabem nem querem saber que raio é que ela anda a fazer na escola ?
Eu tremia, quando lá andava, só de pensar que me podia aparecer um postal em casa a anunciar as minhas faltas. Agora (vejam um comentário a Sementes de Violência) há pais que vão à Escola pedir para não enviarem o postal...